Nada. Sério, pô. Não foi nada, não é nada, talvez nem seja nada, só uma espécie de expectativa desbotada me perseguindo nas janelas de ônibus, na pia da área de serviço, na pizza de calabresa com guaraná. Resta só uma memória distante da época em que os sonhos se expandiam além do palpável. Meu caro, agora eu tô sugada. Me moeram me arrastaram me queimaram me foderam me xingaram me cuspiram me largaram. Tô só o pó. E a impressão de que eu deveria sorrir sem menos trava incomoda a mandíbula. Agora eu só queria um pouquinho. Mais três horinhas de sono. Um salário que desse pra pagar um apartamento próprio e um hambúrguer. Ou qualquer comida. Sério, qualquer uma mesmo. Coisa besta bastava, não precisava me passar a impressão de fazer parte dos ricos emergentes no Brasil, não, eu nem tô pedindo viagem internacional no fim do ano, só de poder ir conhecer Ouro Preto eu já me faria feliz, mesmo se fosse com milhas, até se fosse pela Gol. Agora foda-se, me dá um diploma aí de qualquer coisa que tenha um nome bonito. Serve enfermagem, serve jornalismo. Qualquer porra. Só não pode licenciatura que aí você me fode, né? Não é isso, eu acho professor a profissão mais linda que existe, deveria ter o maior salário de todos. Você sabia que na China ou no Japão o único que é reverenciado por todos é o professor? Se quiser eu te mando pelo whatsapp.
Mas eu li Bordieu.
Foram semanas pra acostumar os olhos com o desfile de informações por milímetro quadrado naquelas páginas. Teve um dia que eu chorei. Olha, te juro que quis mudar o mundo, mas tô exausta. Ontem eu encontrei um passarinho morto em decomposição escondido no fundo do lixo da minha casa. E quis morrer pela quinta vez. Ainda estamos na terça feira. Todos os dias é inédito. Às vezes passo horas pensando em faixas de pedestre pra chegar à conclusão que eu não preciso chegar a conclusão nenhuma. Há algum ponteiro morto dentro de mim que não me deixa mais preocupada com os minutos se esvaindo diante do sofá da sala. E quem desconhece fica sem entender nada. Gosto de me sentar no piso de linóleo e acompanhar a fila de formigas marchando pelo granito da pia. Gosto de assistir documentários sobre o trabalho escravo na indústria da moda e chorar depois porque não acredito em deus. Gosto de sanduíche de pão de forma com requeijão e uva sem caroço. Gosto de conversar no telefone comigo mesma pra ver se consigo entender o que eu falo. Tô perdendo alguma coisa? Tenho descoberto outros mundos no planeta terra. E admito que o processo tem me deixado meio só. Mas não tô me achando melhor que ninguém, tá? Não é nenhuma tentativa de elevação espiritual tailandesa. Sequer melhora minha dor na coluna. É só que tava machucando demais não caber. Por vinte e tantos anos. Precisei dar dois passos pra trás, entender a piada, diminuir o volume. E cruzar o deserto que é apalpar a individualidade de cada átomo que me permeia. E perceber que eu não estou em mim: eu sou eu. Agora é a deixa pra começar uma lição de moral autoajudalística sobre aceitação, higiene pessoal e suco detox. Mas também não é nada disso, é só que cheguei em um momento da vida em que absolutamente todas as músicas da Taylor Swift são iguais e nada mais preenche o estômago. Aí teve outro dia que eu chorei.
E outro.
E outro.
E chorei antes de dormir. Chorei na sala de espera da terapeuta, chorei no meio do trânsito infernal, chorei escondida no banheiro do trabalho. Chorei o desespero de quando me arrancaram do útero de minha mãe. Chorei leite derramado. A língua dos meus olhos contorcida de amargura. Não foi esse o combinado. Me disseram que se eu fizesse tudo certinho dava até pra ter carro. Viagem pro Rio de Janeiro, chocolate na dispensa. Agora só resta eu lá pelos vinte e tantos anos redescobrindo a sujeira do mundo. Constantemente constrangida com o jornal como se fosse um pornô da Xuxa. Me fodi. Estudei que nem condenada, suei pra sobreviver, arquitetei planos e gastei o pouco de energia que me restava pra compreender o motivo de me sentir tão fracassada. Não era nada. Ah, mas nessa idade eles já tinham penca de filho. Deram entrada num apartamento. Fizeram Belém — São Paulo em 2 dias num Chevette Eu não consigo nem parcelar um vestido na black friday da C&A.
Me diz se não é pra chorar.
Muda ano, muda de presidente, muda CLT.
No fim do dia só sobra nossa mudez.
Silêncio quente da mente balançando desequilibrada dentro do ônibus cheio. E todo mundo meio puto. Meio triste. Meio desesperado. E a criança que pula. E o pequeno que vende. E o ex usuário de drogas pedindo doação. E os crentes. E o bêbado. Um por um chacoalhando a cuca a cada curva. E o sol amarelo ânsia queimando parado no sinal. Fincando calor em cada poro de cada cuca a cada curva desengonçando miolos. Pro menino que faz malabares. Pro que vende amendoim. Pro que corre durante o sinal vermelho:
O vidro do carro preto ao lado fecha.
Ódio.
Minha mãe disse que sempre foi desse jeito.
Acho que não é nada