Wednesday, September 04, 2013

O som do silêncio

Decidi então que era sobre isso que precisava falar, pelo menos nesse primeiro texo. Talvez em mais. Sem comprometimentos com quaisquer formas ou fundamentações físicas e metafísicas, o som do silêncio e ao contrário.

Se percebe que tudo o que é feito é feito em forma de discurso. Quaisquer modos de ser fora de um modelo coerente e aceito pelo dasein (ser-aí, no caso, homem, possuidor da razão e produtor de sucessão e de linguagem verbalizada)  daquele tempo (de forma não teleológica) é tratado com uma intensidade chocante de estranhamento e proscrição. 
Pensei então no que tantos me disseram sobre a minha incapacidade de trocar experiências não discursivas, num sentido bem amplo, visto que cada ação, cada gesto,tornou-se com o tempo, subliminar. Pouquíssimas coisas na nossa realidade são porque são, fora de sentenças já formuladas e de tentativas de inclusão, e, as que o são, não costumam ser levadas em conta.
O desconforto foucaultiano, por sua vez, vejo como a tentativa mais legítima de tentar se produzir fora de discursos, dizendo não para alicerces conhecidos e usuais, tentando lidar com uma outra forma de ser, um não dasein, sem ser, sem escutar o ser do tempo, na medida do possível.
Entro agora, na questão principal, o silêncio. Com ele, quero me referir especificamente à não produção de discurso, a não tentativa de individualidade, a de apenas ser (na medida do possível), e nada ser (ignorem Heidegger, por favor). O ente pedrinha da frente da casa da Bia já é pedra e já é ele mesmo, sem esforços, ainda que tenha sido lá colocado por uma força muito maior que a dele. Ele não pôde resistir, e talvez, se pudesse não o faria. Ele está apenas sendo. Caso pudéssemos inferir a ele a palavra resistência, não seria mais. Estaria imerso em um discurso sobre o ser-do-tempo, e então, seria dasein, e portanto, não seria.
Todos os quesitos da vida passaram a ser definíveis. Retiram da vida, da linguagem, da sensibilidade, do prazer, da reprodução, e de toda a natureza o seu misticismo inerente, com ou sem separação homem-animal. O nosso mundo é ordenado seja por finalidade e causalidade, racional e irracional, pureza e impureza, sério e jocoso, silêncio e barulho (etc.). Na verdade, tudo é e não é (até que alguem consiga negar essa tese) um único todo sem uma separação estrita e inteligível alem da material, dada a nós. 
O ser das coisas é dessa forma intangível, inatingível. Não é o tempo, não é o espaço, não está na profundidade nem na superfície. Ele não se desfia quando um algo é posto fora da sua cotidianidade. Ele apenas é, não se desvela, não se revela, não se omite. Dele chegamos perto quando a nós é vinda a inspiração, a compreensão de sentidos. Ele não tem palavras. Ele não é terminologicamente.
Podemos tratar de nós como experiências de extra-terrestres ou como animais que desenvolveram uma lógica mais sofisticada, podemos no chamar qualquer coisa e não vamos chegar a respostas. Da mesma forma, não temos um conceito fixo e certeiro de vida, de animal, de razão. A razão humana, nesse sentido, pode ou não ser mera característica, como os pés dos patos, e só é levada tão a sério porque é o que distingue o homem dos outros animais... (Ah, o homem e essa sua mania de diferenciação). A ordenação do mundo que criamos num passado e criamos todos os dias, pode não ser mais que mania da razão unida ao nosso condicionamento cerebral aristotélico de separar as coisas em caixas, categóricas. E então entendê-las taxionomicamente por adjetivos, distinguindo as coisas, dando nomes, tornando tudo inteligível e apropriável em fala e escrita com o uso do Alphabeto. E aí temos o ornitorrinco, alheio às regras das categorias clássicas, entre outros.
O silêncio do barulho, percebemos todos os dias ao andar em cidades grandes, movimentadas em que a lei de decibéis é diariamente ultrapassadas por máquinas e vozes. O som do silêncio por sua vez, desprezado, pois quando ele deixa de ser pra dizer qualquer outra coisa, deixa de ser levado em conta.